Muitas empresas tradicionais adiam a inovação por acreditar que ela exige reinventar todo o negócio. De acordo com Márcio Alaor de Araújo, executivo do mercado financeiro, a inovação na gestão pode seguir caminhos diferentes, e a comparação entre os modelos incremental e disruptivo ajuda a escolher o mais adequado a cada momento. O sistema financeiro brasileiro oferece exemplos recentes dos dois.
O que diferencia inovação incremental e disruptiva
A inovação incremental melhora o que já existe, com processos mais rápidos, produtos aperfeiçoados e atendimento mais eficiente. Os ganhos costumam ser graduais, o risco é menor e os resultados aparecem em prazos curtos. A inovação disruptiva, por sua vez, altera a lógica do mercado, cria novas formas de entregar valor e, muitas vezes, torna obsoletos modelos consolidados.
As duas não são excludentes. Empresas bem-sucedidas costumam combinar melhorias contínuas no negócio principal com apostas pontuais em iniciativas de maior ruptura. O erro mais comum é tratar apenas a segunda como inovação de verdade, desprezando ganhos incrementais que, somados ao longo dos anos, podem ter impacto ainda maior na competitividade.
O Pix como exemplo de ruptura
Criado pelo Banco Central e lançado em novembro de 2020, o Pix é um caso de inovação disruptiva no sistema financeiro. Em poucos anos, o meio de pagamento instantâneo mudou hábitos de consumo, reduziu a dependência do dinheiro em espécie e pressionou receitas tradicionais dos bancos. Em dezembro de 2025, superou 313 milhões de transações em um único dia.
Sob a ótica de Márcio Alaor de Araújo, o caso mostra como a ruptura pode vir de fora da empresa e redefinir a concorrência rapidamente. Instituições que reagiram cedo integraram o Pix a seus serviços e criaram novas soluções em torno dele. As que demoraram tiveram mais dificuldade para manter relevância em pagamentos, um segmento que parecia consolidado poucos anos antes.
Inovação incremental na rotina da gestão
Nem toda inovação precisa ter a escala do Pix. Na maior parte das empresas, os ganhos mais consistentes vêm de melhorias na própria gestão, como automatizar conciliações financeiras, digitalizar aprovações, usar dados para prever demandas ou organizar reuniões para acelerar decisões. São mudanças discretas, mas que liberam tempo das equipes e reduzem erros e custos.

A inovação incremental tem a vantagem de poder ser testada em pequena escala antes de ser ampliada. Um piloto em uma área ou unidade permite medir resultados, corrigir falhas e construir argumentos para a expansão. O modelo reduz o risco de investimentos elevados em soluções que não se adaptam à realidade da empresa, um problema frequente em projetos ambiciosos demais.
Quando a ruptura se torna necessária
Há momentos, porém, em que melhorar o que existe não basta. Quando o mercado muda de forma estrutural, como ocorreu com os pagamentos digitais, empresas que se limitam a ajustes graduais correm o risco de aperfeiçoar um modelo que está perdendo relevância. Sinais como queda persistente de margens e entrada de concorrentes com propostas muito diferentes merecem atenção.
Como sublinha Márcio Alaor de Araújo, apostas disruptivas exigem estrutura diferente da usada no negócio tradicional. Equipes dedicadas, metas próprias e tolerância maior a erros são necessárias, porque projetos desse tipo raramente apresentam retorno nos primeiros ciclos. Avaliá-los com os mesmos critérios de curto prazo aplicados à operação costuma encerrá-los antes que possam amadurecer.
Inovação na gestão como cultura
Independentemente do modelo, a inovação na gestão depende de um ambiente que estimule experimentação. Profissionais que temem punição por erros não propõem mudanças, e boas ideias da linha de frente se perdem antes de chegar à diretoria. Canais simples para sugestões, reconhecimento de iniciativas e espaço para testes controlados ajudam a transformar a inovação em prática cotidiana.
Conforme aponta Márcio Alaor de Araújo, o equilíbrio entre os dois caminhos depende do momento da empresa e do setor em que atua. Organizações maduras tendem a se beneficiar mais da inovação incremental, enquanto mercados em transformação acelerada exigem disposição para rupturas. Em ambos os casos, a decisão precisa ser consciente, e não fruto de modismos.
