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Ciência

Pesquisadores da UFLA descobrem 12 novas espécies de fungos no Cerrado e na Caatinga

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez
julho 14, 2026
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8 Min de leitura
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Estudo identifica microrganismos com potencial para medicina, agricultura e indústria e reforça o papel da pesquisa brasileira na bioeconomia.

Contents
De onde vieram as amostras e como a descoberta aconteceuO potencial biotecnológico das novas espéciesPor que essa descoberta importa para a pesquisa brasileira

Uma equipe da Universidade Federal de Lavras (UFLA) identificou 12 espécies de fungos até então desconhecidas pela ciência, encontradas em amostras de solo do Cerrado e da Caatinga, em Minas Gerais. A descoberta foi publicada na revista científica Applied Microbiology and Biotechnology, em um estudo sobre biodiversidade e bioprospecção de fungos nos domínios florísticos do estado. A pesquisa reforça o potencial da chamada bioeconomia brasileira, modelo de produção baseado no uso sustentável de recursos biológicos, em uma área do conhecimento ainda pouco explorada no país: a diversidade de microrganismos que vivem no solo.

A dúvida mais comum sobre esse tipo de descoberta é entender por que fungos até então invisíveis à ciência têm relevância prática para setores como saúde e agricultura. Outra pergunta recorrente é como pesquisadores conseguem identificar espécies completamente novas em um campo já estudado há décadas. Este texto explica de onde vieram as amostras, como a identificação foi feita e qual é o potencial biotecnológico das novas espécies.

De onde vieram as amostras e como a descoberta aconteceu

As amostras que originaram a descoberta foram coletadas em dois pontos de Minas Gerais com características ecológicas distintas. A primeira região é Patrocínio, no Alto Paranaíba, situada no bioma Cerrado, e a segunda é Jaíba, no norte do estado, em uma área de transição para o bioma da Caatinga. Juntos, Cerrado e Caatinga cobrem cerca de 35% do território brasileiro e são reconhecidos internacionalmente por sua riqueza biológica, o que torna o solo dessas regiões um ambiente promissor para encontrar organismos ainda não catalogados.

Depois de coletadas, as amostras passaram por um processo longo até a confirmação de que se tratava de espécies novas. Isso incluiu isolamento, cultivo em laboratório, caracterização morfológica, análises moleculares e, por fim, preservação criogênica a 80 graus negativos na coleção de microrganismos da UFLA, conhecida como URMICRO. O estudo foi coordenado pelos professores Luís Roberto Batista, do Departamento de Ciência dos Alimentos, e Victor Satler Pylro, do Departamento de Biologia, ambos da UFLA. Segundo Batista, ao longo do processo ficou evidente que a equipe estava diante de espécies completamente desconhecidas pela ciência.

Como o centro de pesquisa brasileiro enfrentou limitações técnicas para concluir a identificação genética completa, a equipe da UFLA firmou parceria com o Westerdijk Fungal Biodiversity Institute, na Holanda, uma das principais referências mundiais em taxonomia de fungos. A instituição holandesa utiliza sequenciamento de nova geração, tecnologia que permite analisar o material genético com muito mais precisão do que métodos tradicionais. Com essa cooperação internacional, os pesquisadores conseguiram identificar 1.481 fungos presentes nas amostras de solo coletadas nos três ambientes estudados, um volume de dados que ajudou a confirmar a novidade das 12 espécies encontradas.

O potencial biotecnológico das novas espécies

As espécies identificadas pertencem a três gêneros de fungos conhecidos por sua utilidade prática em diferentes setores: Talaromyces, Penicillium e Aspergillus. O gênero Penicillium concentra a maior parte das novas espécies descobertas, entre elas o Penicillium patrocinensis, o Penicillium guarae, o Penicillium pequii, o Penicillium moreirae e o Penicillium beraoi. Os nomes escolhidos fazem referência ao território onde as amostras foram coletadas, à flora típica do Cerrado e à trajetória de pesquisadores brasileiros ligados à área.

A escolha do gênero Penicillium para batizar boa parte das descobertas não é aleatória, já que ele está entre os fungos mais estudados e aproveitados pela indústria em todo o mundo. Foi a partir de uma espécie desse gênero que surgiu a penicilina, antibiótico que revolucionou o tratamento de infecções bacterianas no século passado. Além do uso médico, o Penicillium também é aplicado na maturação de queijos e em alimentos curados, contribuindo para o sabor característico desses produtos, e tem papel ecológico importante na decomposição de matéria orgânica no solo.

O potencial das novas espécies vai além da medicina e da indústria alimentícia. Pesquisadores apontam que esses fungos podem ser usados na produção de bioinsumos de forma sustentável, substituindo processos químicos mais agressivos ao meio ambiente, além de servirem para o biocontrole de pragas agrícolas no lugar de agrotóxicos convencionais. Segundo dados citados no próprio estudo, mais de 40% das enzimas industriais utilizadas no mundo têm origem fúngica, sendo aplicadas em setores como alimentos, papel e celulose, biocombustíveis e agricultura, o que ajuda a dimensionar o interesse econômico por trás de descobertas como essa.

Por que essa descoberta importa para a pesquisa brasileira

O contexto ambiental em que a descoberta ocorreu chama atenção para a urgência da pesquisa sobre biodiversidade de solo no Brasil. O Cerrado é o segundo maior bioma do país e da América do Sul e é considerado um dos hotspots mundiais de biodiversidade pela organização Conservation International, mas já perdeu cerca de 48% de sua vegetação nativa, segundo dados do MapBiomas. A Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, enfrenta situação ainda mais crítica, com mais de 60% de seu território apresentando algum grau de desertificação, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente.

Os próprios pesquisadores apontam as queimadas como o principal fator responsável pela perda de diversidade de microrganismos nesses biomas, já que o fogo costuma ultrapassar as temperaturas médias que os fungos conseguem suportar no solo. Isso significa que espécies como as 12 identificadas pela UFLA podem estar desaparecendo antes mesmo de serem catalogadas pela ciência em outras áreas do Cerrado e da Caatinga, o que reforça a importância de pesquisas de bioprospecção como essa em um ritmo mais acelerado.

Para o mercado brasileiro de bioinsumos, que segundo a Embrapa cresce a taxas superiores a 15% ao ano, descobertas desse tipo representam uma oportunidade concreta de inovação com base na biodiversidade nacional. O banco genético formado pelas novas espécies na coleção da UFLA fica disponível para outras pesquisas futuras, tanto acadêmicas quanto voltadas à aplicação industrial, consolidando o papel das universidades públicas brasileiras na fronteira entre ciência básica e bioeconomia. Estudos como este mostram como a pós-graduação e a pesquisa em biologia e ciência dos alimentos seguem gerando conhecimento com potencial de impacto direto na economia e na sustentabilidade do país.

Fonte consultada: Revista Fórum

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