Falta ao trabalho é fácil de medir. Basta contar dias de ausência, atestados, faltas registradas. O problema mais difícil de enxergar é o oposto: o funcionário que comparece todos os dias, cumpre o horário, mas rende muito abaixo do que deveria por estar fisicamente presente e mentalmente esgotado. Esse fenômeno tem nome técnico, presenteísmo, e Dr. Éverton da Costa Sagiorato, médico do trabalho, avalia que ele costuma passar despercebido justamente por não gerar nenhuma estatística óbvia de ausência.
O que diferencia presenteísmo de simples baixa produtividade?
Presenteísmo não é preguiça nem falta de comprometimento. É a presença física no ambiente de trabalho associada a comprometimento real da capacidade de concentração, decisão e execução, geralmente causado por condição de saúde física ou mental não tratada adequadamente. A pessoa está lá, tentando trabalhar, mas o corpo ou a mente não estão respondendo com a capacidade habitual.
“É importante diferenciar isso de alguém simplesmente desmotivado ou displicente. Presenteísmo tem origem em uma condição de saúde real, seja uma dor crônica não tratada, um quadro de ansiedade não diagnosticado, ou exaustão relacionada à sobrecarga de trabalho. A pessoa não está rendendo menos porque quer, está rendendo menos porque algo está literalmente limitando sua capacidade”, explica o médico do trabalho.
Por que esse custo é mais difícil de identificar que o absenteísmo?
Ausência gera um número imediato: dias parados, custo de reposição, impacto visível no cronograma. Presenteísmo gera perda de produtividade distribuída ao longo do tempo, sem um evento único que a torne visível. Um funcionário presenteísta pode levar o dobro do tempo para concluir uma tarefa, cometer mais erros do que o habitual, ou evitar decisões que exigem mais energia cognitiva, sem que nada disso apareça como um indicador formal de RH.
“Empresa que só monitora taxa de absenteísmo está vendo metade do problema. A outra metade está silenciosamente reduzindo a produtividade geral, sem gerar nenhum alarme nos indicadores tradicionais de gestão de pessoas”, pondera Dr. Éverton da Costa Sagiorato.
O que é presenteísmo no ambiente de trabalho? É a situação em que o trabalhador comparece fisicamente ao trabalho, mas apresenta produtividade significativamente reduzida devido a uma condição de saúde física ou mental não tratada adequadamente, diferente do absenteísmo, que se caracteriza pela ausência do trabalhador.

As causas mais comuns por trás do fenômeno
Condições como enxaqueca crônica, dores musculoesqueléticas mal gerenciadas, ansiedade não tratada e quadros iniciais de esgotamento profissional estão entre as causas mais frequentes de presenteísmo identificadas em acompanhamento de saúde ocupacional. Muitas dessas condições, se identificadas e tratadas precocemente, teriam impacto muito menor sobre a capacidade produtiva do trabalhador do que quando deixadas sem intervenção por longos períodos.
“A maior parte dos casos que identifico como presenteísmo tem uma característica em comum: a pessoa vinha convivendo com o sintoma há tempo, sem buscar ajuda, muitas vezes por não considerar aquilo grave o suficiente para se afastar do trabalho. É exatamente por não parecer grave que o problema se arrasta e acumula impacto”, descreve o médico do trabalho.
Por que cultura organizacional influencia diretamente esse número?
Ambientes de trabalho que associam ausência a fraqueza, ou que penalizam informalmente quem se afasta para cuidar da saúde, tendem a ter índice de presenteísmo mais alto, porque empurram o trabalhador a comparecer mesmo em condição inadequada para produzir bem. Isso cria um ciclo pouco saudável: a pessoa evita se afastar por medo de julgamento, permanece rendendo abaixo do esperado, e o problema de saúde de base segue sem tratamento adequado por mais tempo do que seria necessário.
“Empresa que pressiona presença acima de tudo, sem considerar a condição real de saúde do time, não está ganhando produtividade, está trocando ausência visível por perda invisível, que no fim tende a custar mais caro e demorar mais para ser identificada”, afirma Dr. Éverton da Costa Sagiorato.
Como a gestão de saúde ocupacional pode captar esse tipo de sinal?
Diferente do absenteísmo, que aparece de forma automática em qualquer sistema de ponto, presenteísmo exige atenção mais qualitativa: conversas em exames periódicos, observação de mudança de padrão de desempenho ao longo do tempo, e ambiente onde o trabalhador se sinta seguro para relatar que não está bem, mesmo sem justificar uma ausência formal.
Para Dr. Éverton da Costa Sagiorato, reconhecer presenteísmo como parte legítima da gestão de saúde ocupacional, e não apenas contar dias de ausência, é o que permite a uma empresa intervir antes que uma condição de saúde tratável se transforme em afastamento mais longo e mais custoso para todos os lados envolvidos.
