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O ciclo do crédito estressado: da originação à recuperação, com Felipe Rassi

Dario Montelli
Por Dario Montelli
julho 23, 2026
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6 Min de leitura
Felipe Rassi
Felipe Rassi
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Todo crédito que termina em uma mesa de negociação de recuperação já passou por um caminho longo, que começa muito antes da inadimplência aparecer nos registros de qualquer instituição. Entender esse caminho completo, da originação até a recuperação final, é essencial para quem quer avaliar corretamente o valor de uma carteira, algo que, no entender de Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, poucos investidores fazem de forma sistemática antes de decidir por uma aquisição.

Contents
Originação: onde o risco começa a ser definidoDeterioração: quando um crédito performado se torna estressadoCessão: a transição para o mercado secundárioRecuperação: execução, negociação e resultadoO ciclo se fecha quando a recuperação retroalimenta a originação

Cada etapa desse ciclo deixa marcas específicas no crédito, e essas marcas são justamente o que diferencia uma análise superficial de uma análise capaz de prever, com razoável precisão, o comportamento futuro daquele ativo. Vale acompanhar cada fase separadamente, porque é na transição entre elas que costumam aparecer os sinais mais relevantes sobre a qualidade real de determinado crédito.

Originação: onde o risco começa a ser definido

Tudo começa na concessão do crédito, quando a instituição originadora define critérios de aprovação, taxa de juros e garantias exigidas, considerando o perfil de risco do devedor naquele momento específico. Decisões tomadas nessa fase determinam, em boa medida, a probabilidade de que aquele crédito venha a se tornar problemático mais adiante, ainda que fatores externos e imprevisíveis também influenciem esse desfecho ao longo do tempo. A qualidade dos dados coletados nesse momento inicial, incluindo histórico cadastral e capacidade de pagamento declarada, forma a base sobre a qual toda a trajetória futura daquele crédito será avaliada.

Créditos originados com critérios mais rigorosos tendem a apresentar taxas de inadimplência menores no futuro, mas também costumam ter volume de concessão mais restrito, o que cria uma tensão permanente entre crescimento de carteira e qualidade média do crédito concedido. Essa tensão explica boa parte das oscilações de qualidade observadas em diferentes ciclos de originação ao longo dos anos, especialmente em períodos de expansão acelerada de crédito, quando a pressão por volume tende a afrouxar critérios que seriam mais conservadores em outros momentos do ciclo econômico.

Deterioração: quando um crédito performado se torna estressado

Um crédito passa a ser considerado estressado quando surgem sinais de deterioração na capacidade de pagamento do devedor, mesmo que os pagamentos ainda estejam sendo realizados dentro do prazo contratual original. Indicadores como atraso em outras obrigações ou queda de receita já sinalizam esse estágio de transição.

Esse período de deterioração costuma passar despercebido por análises que olham apenas para o status formal de pagamento, ignorando indicadores comportamentais que antecipam problemas futuros. Felipe Rassi ressalta que instituições mais atentas conseguem, nesse estágio, adotar medidas preventivas de renegociação que evitam a evolução para inadimplência formal, reduzindo o volume de crédito que eventualmente chegará ao mercado secundário.

Cessão: a transição para o mercado secundário

Quando a inadimplência se formaliza e as estratégias internas de cobrança se esgotam, a instituição originadora costuma avaliar a cessão daquele crédito como alternativa mais eficiente do que manter a cobrança internamente. Esse é o momento em que o crédito muda de titular, e toda a documentação acumulada ao longo das fases anteriores passa a ser escrutinada por um novo comprador, com interesses e metodologia próprios de análise.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

A qualidade dessa documentação acumulada, como aponta Felipe Rassi em suas análises sobre o setor, determina em grande parte a velocidade e o preço dessa transição para o mercado secundário. Créditos com histórico bem registrado desde a originação tendem a atravessar essa etapa com menos fricção do que créditos cuja trajetória documental apresenta lacunas acumuladas ao longo do tempo.

Recuperação: execução, negociação e resultado

A fase final do ciclo é onde o novo titular do crédito busca efetivamente recuperar valor, seja por acordo extrajudicial, seja por execução judicial. O resultado dessa fase depende diretamente de decisões tomadas em etapas anteriores, incluindo a qualidade da garantia definida na originação e a integridade documental preservada durante a cessão.

Tratar a recuperação como fase isolada, desconectada das etapas anteriores, é um erro analítico recorrente entre compradores menos experientes, algo que Felipe Rassi observa com frequência ao revisar operações que não performaram como esperado. O resultado da recuperação é, na prática, a soma de todas as decisões tomadas ao longo do ciclo completo, e não um evento independente que começa apenas quando o crédito troca de mãos.

O ciclo se fecha quando a recuperação retroalimenta a originação

Entender esse ciclo completo revela algo além da análise individual de cada crédito: os resultados de recuperação de uma safra específica influenciam diretamente os critérios de originação adotados pelas instituições no período seguinte, criando um movimento contínuo de ajuste entre concessão e recuperação. Portanto, avaliar apenas o momento presente de uma carteira, sem considerar essa dinâmica cíclica mais ampla, significa perder parte relevante da informação necessária para uma decisão de investimento bem fundamentada.

Reconhecer essa continuidade entre originação, deterioração, cessão e recuperação, como resume Felipe Rassi ao tratar do tema, é o que permite interpretar o mercado de crédito estressado como um sistema interdependente, e não como uma sequência de eventos isolados sem relação entre si. Compreender o ciclo inteiro, portanto, vale tanto quanto entender qualquer etapa específica dele isoladamente.

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