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O mercado de créditos estressados pode crescer ainda mais? Perspectivas e fatores que moldam o futuro do setor, segundo Felipe Rassi

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez
maio 21, 2026
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8 Min de leitura
Felipe Rassi
Felipe Rassi
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Conforme apresenta o especialista em créditos estressados, Felipe Rassi, o mercado de créditos estressados no Brasil passou por uma transformação significativa na última década. O que antes era uma atividade restrita a poucos players especializados e operada com baixo grau de transparência e padronização tornou-se um segmento de crescente interesse institucional, com participação de fundos nacionais e internacionais, desenvolvimento de estruturas jurídicas mais sofisticadas e um volume crescente de transações que reflete tanto o amadurecimento do mercado quanto o nível persistentemente elevado de inadimplência na economia brasileira. 

Contents
Quais fatores estruturais sustentam o crescimento do mercado de créditos estressados no Brasil?Quais barreiras ainda limitam o desenvolvimento pleno do mercado de créditos estressados?Como o ambiente macroeconômico e regulatório pode moldar o crescimento do setor nos próximos anos?

Para investidores, gestores de crédito e profissionais jurídicos que atuam ou pretendem atuar nesse mercado, entender seus vetores de crescimento é uma vantagem competitiva concreta. Por isso, leia a seguir para saber mais!

Quais fatores estruturais sustentam o crescimento do mercado de créditos estressados no Brasil?

O nível estruturalmente elevado de inadimplência na economia brasileira é o principal sustentáculo de longo prazo do mercado de créditos estressados, destaca Felipe Rassi. Diferentemente de países com tradição de crédito mais desenvolvida e histórico de inadimplência mais controlado, o Brasil apresenta taxas de inadimplência que refletem uma combinação de fatores enraizados: educação financeira limitada de grande parte da população, sistema judiciário que historicamente tornava a execução de garantias lenta e custosa, volatilidade de renda associada ao peso do emprego informal e ciclos econômicos mais intensos do que os observados em economias mais estáveis. Esses fatores não desaparecem com melhorias conjunturais e garantem um fluxo contínuo de novos ativos problemáticos para o mercado.

O estoque de créditos problemáticos nas carteiras das instituições financeiras brasileiras representa outro vetor estrutural de crescimento. Os grandes bancos acumulam volumes expressivos de créditos em estágio avançado de inadimplência que, por questões regulatórias, contábeis e de capital, geram pressão crescente por desinvestimento. A regulamentação prudencial que exige provisionamento progressivo conforme o crédito envelhece na inadimplência cria um incentivo econômico natural para que os bancos vendam essas carteiras antes que o custo de carregamento se torne excessivo, alimentando o mercado secundário com oferta relativamente regular de ativos com características variadas de prazo, garantia e setor de origem.

Felipe Rassi reforça que o desenvolvimento do arcabouço jurídico e regulatório que rege as transações de crédito no Brasil também contribui para a expansão do mercado ao reduzir as incertezas que historicamente afastavam participantes mais sofisticados. A evolução das normas sobre cessão de crédito, o aprimoramento dos instrumentos de securitização, as reformas nos processos de recuperação judicial e as melhorias nos mecanismos de execução extrajudicial de garantias tornaram o ambiente mais previsível e, portanto, mais atraente para fundos internacionais que trazem capital e metodologias desenvolvidas em mercados mais maduros.

Quais barreiras ainda limitam o desenvolvimento pleno do mercado de créditos estressados?

A assimetria de informação entre vendedores e compradores de carteiras de crédito continua sendo uma das barreiras mais relevantes para o desenvolvimento eficiente do mercado. Bancos e outras instituições que originam crédito têm acesso a um volume de informação sobre o devedor que raramente é transmitido de forma completa ao comprador da carteira. Essa assimetria eleva a percepção de risco por parte dos compradores, que precisam embutir um desconto adicional no preço ofertado para compensar a incerteza sobre a qualidade real dos ativos adquiridos. O resultado é um spread bid-ask persistentemente elevado que reduz o volume de transações e limita a eficiência de alocação do mercado.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

De acordo com o especialista no mercado financeiro, Felipe Rassi, a escassez de mão de obra especializada é outra barreira que se torna mais evidente à medida que o mercado se expande. A gestão de créditos estressados exige uma combinação incomum de competências que inclui análise financeira avançada, conhecimento jurídico especializado em direito recuperacional e bancário, habilidade de negociação com devedores em situação de estresse e capacidade operacional para gerenciar grandes volumes de contratos com características heterogêneas. Profissionais com esse conjunto de habilidades são escassos, e o ritmo de formação de novos especialistas tem ficado aquém da demanda gerada pelo crescimento do setor nos últimos anos.

Como o ambiente macroeconômico e regulatório pode moldar o crescimento do setor nos próximos anos?

O cenário de juros elevados que caracteriza o ambiente macroeconômico brasileiro atual tem um efeito duplo sobre o mercado de créditos estressados. Por um lado, ele alimenta a inadimplência ao encarecer o serviço das dívidas existentes e ao dificultar o refinanciamento de compromissos de curto prazo, o que aumenta o fluxo de novos ativos problemáticos disponíveis para negociação. Por outro, ele eleva o custo de oportunidade do capital investido em estratégias de recuperação de crédito, que competem com instrumentos de renda fixa que oferecem retornos historicamente elevados com risco significativamente menor. Essa dinâmica de duplo efeito torna o comportamento do setor em ciclos de juro alto mais complexo do que uma análise superficial sugere.

Como pontua Felipe Rassi, as perspectivas regulatórias para o setor financeiro têm impacto direto sobre o volume de carteiras disponíveis para negociação. Mudanças nas regras de provisionamento, alterações nos requisitos de capital por tipo de exposição de crédito e eventuais revisões nas normas de securitização podem acelerar ou desacelerar o ritmo de desinvestimento dos bancos em carteiras problemáticas. O monitoramento das tendências regulatórias emanadas do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional é, portanto, uma atividade essencial para qualquer agente que queira antecipar os movimentos de oferta no mercado de créditos estressados com horizonte de médio prazo.

O potencial de crescimento do mercado de créditos estressados em nichos ainda pouco explorados representa uma das perspectivas mais interessantes para os próximos anos. Crédito rural em dificuldade, carteiras de financiamento de veículos, crédito imobiliário de menor porte e dívidas tributárias de empresas em recuperação são segmentos que têm crescido em volume, mas que ainda contam com poucos participantes especializados no lado comprador. A entrada de novos players com expertise específica nesses nichos pode destravar liquidez em mercados que hoje operam com preços muito distorcidos pela escassez de compradores qualificados, criando oportunidades de retorno diferenciado para quem se posicionar com antecedência.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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