Marcello José Abbud, referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos, chama atenção para um segmento de consumo que combina, de forma paradoxal, profundo amor pelos ecossistemas marinhos e geração de resíduos de embalagens com baixíssima taxa de reciclagem: o mergulho recreativo.
À medida que o mergulho recreativo cresce no Brasil, impulsionado pelo turismo costeiro e pela expansão das certificações de mergulho, o passivo ambiental associado às embalagens desse segmento merece atenção crescente. Isso porque cilindros de gases especiais, reguladores, computadores de mergulho, trajes de neoprene, máscaras, nadadeiras e uma ampla variedade de acessórios e consumíveis são comercializados em embalagens plásticas, metálicas e compostas que raramente encontram destino adequado ao final de sua vida útil. Vamos explorar ao longo deste texto a composição desse problema e os caminhos para reduzi-lo.
O perfil das embalagens no segmento de mergulho recreativo
O mercado de equipamentos e consumíveis para mergulho recreativo utiliza uma variedade de embalagens que reflete a diversidade de produtos comercializados no segmento. Embalagens plásticas rígidas de polietileno e polipropileno são comuns para acessórios de menor porte, como bocais, válvulas e peças de reposição. Já embalagens metálicas são utilizadas para produtos de manutenção de equipamentos, como lubrificantes, vedantes e limpadores especializados. Por sua vez, embalagens compostas multicamadas aparecem em produtos de higiene específicos para mergulhadores, como protetores solares resistentes à água e produtos de cuidado com trajes de neoprene.
Conforme aponta Marcello José Abbud, a maioria dessas embalagens não conta com sistemas de logística reversa estruturados no Brasil, e sua reciclabilidade pelos sistemas convencionais é limitada pela diversidade de materiais e pela contaminação com resíduos dos produtos utilizados. Com efeito, latas de lubrificante com restos de produto, embalagens multicamadas de protetores solares e plásticos rígidos de baixo volume unitário são materiais que chegam às usinas de triagem em condições que dificultam seu reaproveitamento, mesmo quando descartados pelos consumidores de forma aparentemente correta.

A contradição entre a cultura do mergulho e o impacto ambiental das embalagens
A comunidade de mergulhadores é reconhecida por seu alto nível de consciência ambiental e por seu engajamento em iniciativas de conservação dos ecossistemas marinhos. Projetos de retirada de resíduos do fundo do mar, monitoramento de recifes de coral e campanhas contra o uso de protetor solar com compostos prejudiciais à vida marinha são exemplos de iniciativas que partem frequentemente da própria comunidade de praticantes. Essa consciência ambiental, porém, nem sempre se traduz em comportamentos igualmente atentos em relação às embalagens dos produtos utilizados na prática do mergulho.
Na visão de Marcello José Abbud, essa contradição reflete um padrão mais amplo no consumo de produtos relacionados a esportes e atividades ao ar livre, em que a identificação com a natureza coexiste com hábitos de consumo e descarte que contradizem os valores ambientais declarados. Por conseguinte, tornar essa contradição visível para a comunidade de mergulhadores é o primeiro passo para mobilizar um grupo com alto potencial de influência sobre fabricantes e distribuidores do segmento em direção a embalagens mais sustentáveis e sistemas de logística reversa adequados.
Caminhos para a redução do impacto ambiental das embalagens do segmento
A redução do impacto ambiental das embalagens no segmento de mergulho recreativo passa por iniciativas que atuam em diferentes pontos da cadeia. De forma prática, fabricantes e distribuidores de equipamentos e consumíveis podem adotar embalagens monomateriais recicláveis, reduzir embalagens secundárias desnecessárias e estruturar programas de retorno de embalagens nos pontos de venda especializados. Já lojas e centros de mergulho podem atuar como pontos de coleta de embalagens pós-consumo e de equipamentos em fim de vida útil, aproveitando a relação de fidelidade com os clientes para engajá-los em práticas de descarte responsável.
Marcello José Abbud pondera que a certificação ambiental de operadoras de mergulho e centros de treinamento que adotem critérios de gestão de resíduos de embalagens em suas operações é uma iniciativa com potencial de criar um diferencial competitivo relevante em um segmento em que a consciência ambiental dos consumidores é um fator de decisão de compra cada vez mais importante. Desse modo, a combinação entre engajamento da comunidade, responsabilidade dos fabricantes e apoio regulatório para a criação de sistemas de logística reversa específicos para o segmento é o caminho mais estruturado para transformar a relação entre o mergulho recreativo e o impacto ambiental de suas embalagens.
